Às vezes, relembrar coisas do passado pode ser uma tarefa difícil, pois o passado às vezes nos trás lembranças de coisas que, por mais que desejemos esquecer, sempre estão de volta em nossa mente. Contudo também existem boas lembranças, aquelas que desejamos guardar por toda vida - lembranças que nos confortam e tanto acalantam o coração.
Eu, quando criança, vivi até os cinco anos de idade em um “interiorzinho” chamado Campestre, município de São Luiz Gonzaga; lugar bem pacato e pobre, sem muita infraestrutura, onde as casas eram bem simples, mas mesmo assim, construídas com o suor de pessoas trabalhadoras, que se esforçavam muito para manter suas famílias e não abriam mão de serem felizes por isso.
Sinto grande emoção quando me lembro de papai e mamãe, que sempre estavam lá - labutando na roça pra nos dá o que comer. E por isso sinto muito orgulho deles, que faziam o que podiam e o que não podiam, pra que eu e meus quatro irmãos crescêssemos bem e saudáveis. E assim, fui crescendo naquele lugar, mesmo não lembrando muita coisa, devido a minha idade, ainda vejo com nitidez algumas daquelas imagens de um tempo que jamais será apagado da minha memória.
Quando pequena sempre fui muito sapeca, vivia me machucando em um pé de pimenta que papai tinha plantado, e minha mãe brigava comigo por isso, dizia que eu já tava “bem crescidinha” e que não devia fazer aquilo. Essas e outras poucas lembranças ainda tenho do meu interior – lugar pobre e bem humilde, mas que mesmo assim eu amava.
E assim, levávamos a vida... Simples e rotineira, mas sempre com fé e esperança, que foram as principais armas durante toda minha trajetória.
Aos cinco anos de idade, papai trouxe eu e minha família para Bacabal. De início, fiquei maravilhada com a cidade, que comparada ao interior onde morava, era bem mais desenvolvida.
Certa vez, após ter chegado a Bacabal, me espantei com algo que nunca ainda tinha visto - um barulho estranho, um som de buzina e dois “olhos enormes” me encarando; fiquei sabendo depois que aquele “bicho” que tinha visto era um carro! Coisa de barão naquele tempo.
Minha casa ficava do lado de uma praça e da Igreja de Santa Teresinha, que era bem pobre naquela época, mas eu gostava de brincar lá e sempre ia aos festejos da Igreja com minha mãe, onde havia muitas guloseimas, que só de pensar... Uumm... já sinto água na boca! Tudo era muito bom!
Mas, na minha memória, existem também muitas lembranças tristes...
Certa vez, quando meu pai havia voltado de uma viagem que tinha feito pro interior, ele trouxe consigo uma vaca, e à noite quando ele foi amarrar a vaca, ela o derribou e ele, depois de cinco dias, morreu – Aquele homem trabalhador e esforçado que jamais sairá de minha memória. Foi muito triste pra mim e pra minha mãe, que agora, teria que cuidar de cinco filhos, sozinha.
Às vezes, quando ela ia pra roça, ela me levava junto pra servir de companhia e meus dois irmãos, como já eram mais velhos, já trabalhavam na roça também; mas eu não trabalhava muito, pois era a mais nova de cinco irmãos. Eu sofri muito com a morte do meu pai, e logo de repente minha mãe também morreu e eu fui criada pela minha irmã.
Aos dez anos, meus pais já haviam morrido e eu vivia pelas casas alheias; eu ajudava minha irmã em casa e quando fiquei mais velha, aos quatorze anos, fui trabalhar de empregada doméstica pra ajudar em casa.
Tudo isso, foi crescendo comigo e marcado minha vida, mas hoje, graças a Deus não tenho muitas sequelas. Apenas saudades... do meu pai, da minha mãe – que são pra mim verdadeiros heróis!
(Texto escrito com base na entrevista da Sra. Raimunda Silveira Dias, 65).
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